segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

José Saramago, “ Discurso de Estocolmo”, 7 de Dezembro de 1998.

 “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, de pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia.”

José Saramago, “ Discurso de Estocolmo”, 7 de Dezembro de 1998.

"Apenas Miúdos", Patti Smith

 

“Apenas Miúdos”, de Patti Smith (livro vencedor do National Book Award), é de uma generosidade e força incomensuráveis.

As biografias nunca estiveram no meu leque de interesses de leitura. No entanto, por gostar muito da música de Patti Smith, tive curiosidade em conhecer melhor o seu percurso de vida.

O livro centra-se na sua história e no relacionamento que manteve com o fotógrafo Robert Mapplethorpe.

Foi no Verão em que morreu o Coltrane. O Verão do “Crystal Ship”. As crianças floridas erguiam ao alto os seus braços vazios e a China fazia rebentar a bomba H. Jimi Hendrix deitou fogo à guitarra dele em Monterey. A rádio de onda médio tocava “Ode to Billie Joe”. Houve motins em Newark, Milwaukee e Detroit. Foi o Verão da Elvira Madigan, o Verão do amor. E nessa atmosfera instável, pouco hospitaleira , um encontro fortuito alterou o rumo da minha vida. Foi o Verão em que conheci o Robert Mapplethorpe.

De uma forma poética e com um humor subtil, Patti Smith leva-nos a dar um passeio pela Nova Iorque dos finais dos anos 60 e início dos anos 70. Conta-nos a história comovente de duas almas gémeas que viveram para a arte, o início das suas carreiras artísticas, marcada pela luta pela sobrevivência, ausência de dinheiro e sede de livros e de arte, seguindo o caminho de Rimbaud, de Jean Genet, entre outros. Uma história repleta das vicissitudes que viveram enquanto traçavam os seus caminhos artísticos, anos de medo e de muitas descobertas. Durante esse passeio “tropeçamos” ainda nos artistas da Factory de Andy Warhol e naqueles que viveram no hotel Chelsea, como Janis Joplin .

Picasso não se enfiou na concha quando o seu adorado País Basco foi bombardeado. Reagiu criando uma obra-prima com a Guernica, para nos recordar as injustiças cometidas contra o povo dele. Quando eu tinha uns dinheiros extra ia até ao Museu de Arte Moderna e sentava-me diante da Guernica, tendo passado muitas horas a meditar no cavalo caído e no olho o bolbo que refulge sobre os tristes despojos da guerra. A seguir regressava ao trabalho.

Mathias Enard, “Bússola”

 “A vida é uma sinfonia de Mahler, nunca volta atrás, não endireita o que nasce torto. À parte o ópio e o esquecimento, não há escape possível da consciência do tempo, definição mesma de melancolia, da noção de finitude; a tese de Sarah pode ser lida ( penso nisso agora) como um catálogo de melancólicos, o mais estranho catálogo dos aventureiros da melancolia, de géneros e países diferentes, Sadegh Hedayat, Anne-Marie Schwarzenbach, Fernando Pessoa, para citar apenas os seus preferidos - que são também aqueles a quem ela consagra o menor número de páginas, forçada pela Ciência e pela Universidade a restringir-se ao seu tema, às Visões do Outro entre o Oriente e o Ocidente.

Mathias Enard, “Bússola”, D.Quixote.

"O Infinito num Junco", Irene Vallejo

 Talvez seja o livro que mais vezes recomendo nestes últimos tempos. Num tempo em que se fala de escassez de papel, das ameaças do digital (que só vem complementar e não substituir, a meu ver), é bom mergulharmos numa história do livro, desde antiguidade até aos nossos dias. 

Tecido pelas memórias e experiências de Irene Vallejo entramos neste livro de viagens (como a própria intitula) e vemos como o livro "superou a prova do tempo, demonstrou ser um corredor de longas distâncias". "

"O Infinito num Junco" é apaixonante. Irene Vallejo escreve para que as histórias não acabem e "para que não se quebre o velho fio das vozes". E como disse na última entrevista ao Ípsilon : "o essencial é a nossa necessidade de histórias. Precisamos das histórias para entender o mundo, para dar sentido à experiência. Hoje consumimos mais histórias do que em qualquer outro tempo. As séries, o cinema, os romances, as redes...estamos sempre a configurar tudo como histórias, partilhando-as. A história serve para combater o caos dos acontecimentos. "

Patrícia Portela, "dias úteis"

" Lembro-me de uma conversa que ouvi hoje no autocarro a caminho do centro da cidade. Um filho pergunta a um pai:

-Pai, quando é que tudo melhora?

-Quando te habituares a isto, filho.    

 Apago a luz, fecho os olhos, e prometo não me habituar.     

Imagino os governantes dos cinco continentes a combater as mesmas insónias com o medo do pesadelo dos políticos. A conspiração perfeita contra si próprios, o terror e o desejo ambivalente de quererem assinar eles próprios a lei certa que provocará a revolta do povo e a sua própria derrocada.    

Sorrio.    

Sei que não vou cumprir a promessa de não me habituar.   

 Mas gostava tanto. "

Patrícia Portela, "dias úteis", Caminho.


Maria Velho da Costa, "Myra"

 " Minha mãe esfalfou-se. Há-de haver lá dentro uns restos da máquina de costura Singer. De sol a sol também andou e andámos. Veio o tempo da tropa. Fugi a salto para nunca mais. Quis o destino que o mar me fosse o lugar do nunca mais. O mar, digo-te, é como a paixão de amor. É o lugar do nunca mais. Do até mais ver fatal. Não me trouxe remédio à vida. " 

Maria Velho da Costa, "Myra", Assírio & Alvim.

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém"

 

"Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente o telefone tocou. Uma vez, duas, três,quatro,cinco,seis,sete,oito,nove,dez,onze,doze,treze,catorze. Ernst atendeu."

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém", Caminho.

Os 50 anos de Assírio & Alvim

  No dia 12 de Novembro de 2022, a editora Assírio & Alvim completou cinquenta anos. E isso levou-me a percorrer memórias e a perceber o...