“Apenas Miúdos”, de Patti Smith (livro vencedor do National Book Award), é
de uma generosidade e força incomensuráveis.
As biografias nunca estiveram no meu leque de interesses de leitura. No
entanto, por gostar muito da música de Patti Smith, tive curiosidade em conhecer melhor o seu percurso de vida.
O livro centra-se na sua história e no relacionamento que manteve com o
fotógrafo Robert Mapplethorpe.
Foi no Verão em que morreu o Coltrane. O Verão do “Crystal Ship”.
As crianças floridas erguiam ao alto os seus braços vazios e a
China fazia rebentar a bomba H. Jimi Hendrix deitou fogo à
guitarra dele em Monterey. A rádio de onda médio tocava “Ode to
Billie Joe”. Houve motins em Newark, Milwaukee e Detroit. Foi o
Verão da Elvira Madigan, o Verão do amor. E nessa atmosfera
instável, pouco hospitaleira , um encontro fortuito alterou o rumo
da minha vida. Foi o Verão em que conheci o Robert Mapplethorpe.
De uma forma poética e com um humor subtil, Patti Smith leva-nos
a dar um passeio pela Nova Iorque dos finais dos anos 60 e início
dos anos 70. Conta-nos a história comovente de duas almas gémeas
que viveram para a arte, o início das suas carreiras artísticas,
marcada pela luta pela sobrevivência, ausência de dinheiro e sede de livros e de arte, seguindo o caminho de Rimbaud, de Jean Genet, entre outros. Uma
história repleta das vicissitudes que viveram enquanto traçavam os seus
caminhos artísticos, anos de medo e de muitas descobertas.
Durante esse passeio “tropeçamos” ainda nos artistas da Factory de Andy
Warhol e naqueles que viveram no hotel Chelsea, como Janis Joplin .
Picasso não se enfiou na concha quando o seu adorado País Basco foi
bombardeado. Reagiu criando uma obra-prima com a Guernica, para nos
recordar as injustiças cometidas contra o povo dele. Quando eu tinha
uns dinheiros extra ia até ao Museu de Arte Moderna e sentava-me
diante da Guernica, tendo passado muitas horas a meditar no cavalo
caído e no olho o bolbo que refulge sobre os tristes despojos da
guerra. A seguir regressava ao trabalho.