Mostrar mensagens com a etiqueta citações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta citações. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Damon Galgut, "A Promessa"

"Há um momento do dia que tenta reservar para si mesma, mais concretamente as primeiras duas horas depois do turno. Seja de manhã ou de noite, o ritual é o mesmo. Enche a banheira e acende uma vela no rebordo. Depois despe o uniforme hospitalar, peça a peça, sempre com cuidado para seguir a ordem certa, porque, se houver um engano na sequência, vai ter de se vestir outra vez e recomeçar do princípio. Estendida dentro de água morna, enquanto a luz na casa de banho vai mudando, ela consegue muitas vezes esquecer-se de si mesma por uns minutos. Ou então tornar-se tão completamente ela mesma que tudo o resto fica em suspenso, incluindo o dia comprido e difícil que deixou para trás. Mas esta noite ela está inquieta, algo não bate certo no coração das coisas."

Damon Galgut, "A Promessa", Relógio d' Água. 

Roberto Bolano, "Os Detectives Selvagens"

 

"Durante um tempo, a Crítica acompanha a Obra, depois a Critica desvanece-se e são os Leitores quem a acompanha. A viagem pode ser longa ou curta. Depois os Leitores morrem um por um e a Obra continua só, ainda que outra Crítica e outros Leitores pouco a pouco vão acompanhando o seu percurso. Depois a Crítica morre outra vez e os Leitores morrem outra vez e sobre este rasto de ossos a Obra segue a sua viagem para a solidão. Aproximar-se dela, navegar no seu rasto é sinal inequívoco de morte certa, mas outra Crítica e outros Leitores se aproximam dela, incansáveis e implacáveis, e o tempo e a velocidade devoram-nos. Por fim, a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidão. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirá o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia e a mais secreta memória dos homens."

Roberto Bolano, "Os Detectives Selvagens"

Curzio Malaparte, "Kaputt"

 

"Eu possuía ainda um pouco de pão e queijo no saco de viagem; comecei a comer, percorrendo a passadas largas o compartimento. Tirara as botas e caminhava de pés descalços pelo chão de terra batida, percorrido por colunas de grandes formigas negras. Sentia as formigas subirem-me pelos pés, insinuarem-se entre os dedos, explorarem-me os tornozelos. Estava morto de fadiga e nem sequer conseguia mastigar, de tal modo sentia os maxilares renitentes e os dentes doridos pela fadiga. Deixei-me cair, finalmente, sobre a cama e fechei os olhos, mas não consegui adormecer. De tempos a tempos, um tiro de espingarda, próximo ou longínquo, rompia o silêncio da noite. Eram tiros disparados por guerrilheiros, escondidos nos campos de trigo e nas florestas de girassóis que cobrem toda a imensa planície ucraniana quer do lado de Kiev, quer do de Odessa. Depois, à medida que a noite se tornava mais densa, o fedor da carcaça do cavalo fundia-se com o perfume da erva e dos girassóis. Não podia dormir. Estava estendido no meu leito de olhos fechados, mas não conseguia adormecer, de tal modo estava morto de fadiga."

Curzio Malaparte, "Kaputt", cavalo de ferro.

Annie Ernaux, “Os Anos”

 

“Antigamente, quando desejava escrever, no seu quarto de estudante, esperava descobrir uma linguagem desconhecida que desvendaria coisas misteriosas, como se fosse uma visionária. Imaginava também o seu livro acabado, uma revelação, para os outros, do seu ser mais profundo, uma realização superior, uma espécie de glória - o que ela não teria dado em troca para se tornar “escritora”, da mesma maneira que, em criança, sonhava que adormecia e acordava transformada em Scarlett O’Hara. Mais tarde, à frente de turmas desumanas de quarenta alunos, atrás de um carro de supermercado, ou sentada em bancos de jardim com um carrinho de bebé ao lado, esses sonhos desapareceram. Não havia nenhum mundo inefável a surgir, como por magia, de palavras inspiradas, e ela nunca escreveria a não ser a partir da sua língua, a de todos, o único instrumento com o qual podia contar para agir sobre aquilo que lhe causava revolta. Portanto, o livro a fazer era um instrumento de luta. Nunca abandonou esta ambição, mas agora, acima de tudo, gostaria de captar a luz que inunda rostos doravante invisíveis, toalhas de mesa cheias de comida desaparecida, essa luz que já lá estava, dentro das narrativas dos domingos de infância, e nunca mais deixou de descer sobre as coisas no momento em que são vividas- uma luz de outrora.”

Annie Ernaux, “Os Anos”, Livros do Brasil.

José Saramago, “ Discurso de Estocolmo”, 7 de Dezembro de 1998.

 “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, de pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia.”

José Saramago, “ Discurso de Estocolmo”, 7 de Dezembro de 1998.

Mathias Enard, “Bússola”

 “A vida é uma sinfonia de Mahler, nunca volta atrás, não endireita o que nasce torto. À parte o ópio e o esquecimento, não há escape possível da consciência do tempo, definição mesma de melancolia, da noção de finitude; a tese de Sarah pode ser lida ( penso nisso agora) como um catálogo de melancólicos, o mais estranho catálogo dos aventureiros da melancolia, de géneros e países diferentes, Sadegh Hedayat, Anne-Marie Schwarzenbach, Fernando Pessoa, para citar apenas os seus preferidos - que são também aqueles a quem ela consagra o menor número de páginas, forçada pela Ciência e pela Universidade a restringir-se ao seu tema, às Visões do Outro entre o Oriente e o Ocidente.

Mathias Enard, “Bússola”, D.Quixote.

Maria Velho da Costa, "Myra"

 " Minha mãe esfalfou-se. Há-de haver lá dentro uns restos da máquina de costura Singer. De sol a sol também andou e andámos. Veio o tempo da tropa. Fugi a salto para nunca mais. Quis o destino que o mar me fosse o lugar do nunca mais. O mar, digo-te, é como a paixão de amor. É o lugar do nunca mais. Do até mais ver fatal. Não me trouxe remédio à vida. " 

Maria Velho da Costa, "Myra", Assírio & Alvim.

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém"

 

"Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente o telefone tocou. Uma vez, duas, três,quatro,cinco,seis,sete,oito,nove,dez,onze,doze,treze,catorze. Ernst atendeu."

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém", Caminho.

Os 50 anos de Assírio & Alvim

  No dia 12 de Novembro de 2022, a editora Assírio & Alvim completou cinquenta anos. E isso levou-me a percorrer memórias e a perceber o...